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Síndrome de May-Thurner: a compressão (nem tão) silenciosa da veia ilíaca esquerda.

Na Síndrome de May-Thurner (ou Síndrome de Cockett), a veia ilíaca comum esquerda é comprimida entre a artéria ilíaca comum direita, que cruza por cima dela, e a quinta vértebra lombar, logo atrás. É uma variação anatômica comum — presente em boa parte da população — que se torna doença quando a compressão passa a dificultar o retorno do sangue da pelve e da perna esquerda.

O resultado é uma hipertensão venosa crônica a montante: a veia se dilata, surgem vias colaterais, varizes atípicas, edema unilateral e dor pélvica que persiste por anos. Em alguns casos, a primeira manifestação é uma trombose venosa profunda ílio-femoral esquerda em pessoa jovem e sem fatores de risco evidentes.

Por ser predominantemente à esquerda e de instalação lenta, o quadro é frequentemente atribuído a "má circulação", questões ginecológicas ou problemas de coluna — e segue anos sem diagnóstico.

Ilustração da Síndrome de May-Thurner: estenose da veia ilíaca comum esquerda por compressão da artéria ilíaca comum direita
Estenose da veia ilíaca comum esquerda por compressão da artéria ilíaca comum direita — o mecanismo central da síndrome.
Esquema anatômico da veia cava inferior, veias e artérias ilíacas comuns e corte transversal na altura da vértebra
A anatomia do cruzamento: a artéria ilíaca comum direita passa sobre a veia ilíaca comum esquerda, que fica "prensada" contra a vértebra.
Corte anatômico na quinta vértebra lombar e flebografia mostrando compressão da veia ilíaca esquerda com circulação colateral
Correlação entre o corte anatômico na quinta vértebra lombar e a flebografia, com a veia comprimida e as colaterais de escape.

A importância de uma consulta atenta

Nenhum exame substitui a escuta cuidadosa. É na consulta que detalhes aparentemente banais — a perna que incha sempre do mesmo lado, a varize vulvar que ninguém valorizou, a dor que piora em pé ou após a relação sexual, a trombose antiga "sem explicação" — passam a formar um conjunto coerente. A suspeita clínica é o que direciona o Doppler para o ponto certo e evita que a paciente percorra anos de exames normais. Por isso, cada avaliação é conduzida com anamnese detalhada, exame físico completo e o Doppler realizado pelo próprio cirurgião vascular, no mesmo atendimento.

Principais sinais e sintomas

  • Edema (inchaço) persistente da perna esquerda, sem causa aparente
  • Peso, dor e cansaço na perna esquerda que pioram ao final do dia
  • Varizes de aparecimento precoce ou de predomínio unilateral à esquerda
  • Varizes vulvares, perineais e na raiz da coxa esquerda
  • Dor pélvica crônica que piora em pé, no período pré-menstrual e após a relação sexual
  • História de trombose venosa profunda ílio-femoral esquerda, muitas vezes 'sem motivo'
  • Circulação colateral visível na região do púbis e do baixo ventre

Principais métodos de diagnóstico

Ecografia Doppler Vascular

Exame inicial e insubstituível: avalia a veia ilíaca comum esquerda, mede velocidades e detecta o salto de fluxo típico da compressão, além de mapear o refluxo pélvico e as vias colaterais.

Angiotomografia (AngioTC) venosa pélvica

Confirma o ponto exato da compressão entre a artéria ilíaca direita e a coluna, quantifica o grau de estenose e fornece a reconstrução 3D usada no planejamento do tratamento.

Angiorressonância venosa

Alternativa sem radiação, útil em pacientes jovens, com alergia ao contraste iodado ou em acompanhamento seriado.

Flebografia com ultrassom intravascular (IVUS)

Padrão-ouro invasivo, realizado no mesmo tempo do tratamento endovascular: mede a área da veia por dentro e define com precisão a necessidade e o tamanho do stent.

Tratamentos mais indicados

A conduta é individualizada e depende do grau de compressão, dos sintomas e da presença de refluxo pélvico ou trombose associada.

Medidas clínicas e compressão

Meias de compressão graduada, exercícios de bomba muscular, controle de peso e venotônicos aliviam sintomas nos casos leves e complementam qualquer tratamento.

Angioplastia com stent venoso ilíaco

Tratamento de escolha nas compressões significativas: por punção, sem cortes, a veia é dilatada e mantida aberta por um stent dedicado — com alívio rápido do edema e da dor.

Anticoagulação

Indicada quando há trombose associada e no período após o implante do stent, conforme o perfil de risco de cada paciente.

Embolização das veias pélvicas

Quando a compressão coexiste com refluxo ovariano, o tratamento das varizes pélvicas complementa a desobstrução ilíaca e evita recidiva dos sintomas.

Suspeita de compressão da veia ilíaca?

A avaliação começa por uma consulta atenta e por uma ecografia Doppler vascular realizada pelo próprio cirurgião vascular.